O peso do amor eterno

“Você chegou como uma enchente. Aquela água nervosa que chega e devasta tudo. O céu preto e o vento frio, antecipando a tempestade. E você era a tempestade; eu procurei abrigo debaixo da nuvem mais densa que existira. Caiu como um raio em mim. Entrou nas minhas lacunas levando tudo que havia aqui. Sorriso, esperança, expectativa, amor próprio, liberdade, virgindade. Arrancou daqui de dentro tudo que estava guardado; ganhou espaço onde não te cabia… e eu me deixei levar.

Fui te conhecendo aos poucos, entre gritos, palavrões, apertos e surtos eu fui moldando à sua maneira o que era amor. Eu me desfiz para caber em um espaço que não era meu, em um lugar que você determinou. Seu jeito agressivo era só uma demonstração de afeto, me destruía, mas eu entendia que era amor.

Nada nunca estava bom. Seus padrões eram excessivamente ridículos. Eu sempre era inferior e burra, não sabia o que falava. Você manipulava cada ato meu, me fazia sentir culpa quando, na verdade, a culpada não era eu. Controlava meu celular, meus horários, minha vida. E eu acreditei que você mudaria, e quem mudou fui eu. Me afastou dos meus amigos, do meu trabalho, da minha família, até de Deus, me trancou no cárcere da sua ilusória paixão, e eu deixei. Te entreguei todas as chaves que haviam em mim. Cada medo. Cada insegurança. Eu me deixei levar pelos pedidos de perdão após os insultos. “vagabunda”, “você me trai”, “não presta”, “nunca vai achar alguém que te ame como eu”… e eu comecei a acreditar. Eu realmente não prestava. Eu era um lixo. O lixo que você criou. Eu tinha medo o tempo todo. Medo de ser substituída, medo de não ser suficiente. Eu tirava forças de onde não tinha pra tentar não brigar, pra não ouvir seus insultos outra vez, pra não correr o risco de você me machucar.

Eu pedia ajuda a Deus todos os dias; procurava pelos cantos uma forma de te tirar de mim, mas eu não achava. Por vezes eu tentei me abster da situação, mas era mais forte do que eu. Eu era total dependente de ti. O que eu faria da vida sem você? Como viveria? Com quem sairia? Quem me amaria novamente? Eu era tão insignificante.

Eu me tornei um monstro. Chorava pedindo a Deus para que aquela ansiedade saísse de mim, eu só queria conseguir enxergar os seus erros sem me culpar, sem chorar, sem me automutilar com pensamentos de que você agia assim por minha causa. Entrava em desespero quando cogitava a ideia de não te ter perto de mim; eu te amava. Acreditei que você mudaria…

E depois de mais uma discussão explosiva você prometeu que ia mudar. Dessa vez seria diferente. Você seria calmo e não sentiria mais ciúmes de mim. Vestiria o que eu quisesse vestir, poderia ver meus amigos, eu ia voltar a viver. E voltei aos poucos. Afora todo medo que existia dentro de mim, o medo de não ser aceita, medo de ficar sozinha pra sempre, a insegurança de me sentir só, eu enxerguei que você não merecia estar na minha convivência; que você não era digno de permanecer ao lado de alguém que só te quis bem enquanto você a destruía. Alguém que chorou, sofreu, se flagelou, por sua causa.

Eu reencontrei o Homem que mostrou o meu valor. O Homem que me mereceu. O Homem que me disse que nada daquilo era o que eu realmente merecia. E eu acordei. Acordei no meio de um caos. Um caos de perseguição, de ciúmes doentio, de posse – você começou a perceber que já não me dominava mais.

Outrora, eu abri mão da minha vida pra viver a sua; abri mão dos meus sorrisos, do meu emprego, das pessoas que eu amava, eu renunciei a mim por você. Ganhei em troca mentiras, dor e solidão. Mas eu vi que nada daquilo era pra minha vida. Eu não mereço ser tratada de qualquer maneira. Eu não mereço ser insegura. Não mereço ser diminuída, ser feita de minoria perto de você. Eu não mereço não poder viver a minha vida. Não falar com ninguém. Não respirar. Não existir. Eu fui feita livre.

E me livrei de você. Doeu e vai doer, mas foi a maior prova de amor próprio que eu poderia me dar. Porque você me fez mal, mas ensinou que nessa vida eu mereço muito além de alguém como você.”

O relacionamento abusivo é mais comum do que imaginamos. Começa nos detalhes. De pouco em pouco minou a alma, a mente, o corpo. Sair desse buraco não é fácil. Se convencer que é a vítima também não é. Avalie com cautela, seja analítica(o). Na calmaria de um amor eterno, às vezes existe um abismo de violência. Nunca carregue algo que te puxa pra baixo e suga suas energias; você vale mais. Busque por ajuda para sair e seja forte quando se desligar dessa relação. Precisando de uma amiga, estou aqui.

Afinal, amor não machuca, não oprime, não diminui, não despreza, não ofende, não limita… o amor é livre, e por ser tão leve te faz querer ficar. Nunca aceite menos do que você merece. Se precisa te controlar, te ofender, te afastar das pessoas, controlar seu celular, sua rotina, te tornar ansiosa e insegura pra demonstrar que te ama, repense – nada que destrói é amor.

Beijos de luz e muita poesia.

Thais Marques.

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Um comentário em “O peso do amor eterno

  1. Eu saí a pouco tempo de um relacionamento abusivo, me vi nesse texto, completamente, sem mais. Precisava ler isso. Texto maravilhoso, parabéns pelas palavras! ❤️

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